Um evento atmosférico incomum no Oceano Pacífico tem chamado a atenção de meteorologistas e pode marcar uma mudança significativa no clima global. A intensificação dos ventos de oeste, considerada uma das mais fortes das últimas décadas, está alterando o padrão natural do oceano, acelerando o enfraquecimento da La Niña e elevando o risco de formação de um “Super El Niño” ao longo de 2026.
O gatilho climático
O fenômeno, conhecido como Estouro de Vento de Oeste (WWB), atua como um importante impulsionador das mudanças em curso. Ele inverte a direção dos ventos alísios — que normalmente sopram de leste para oeste — e desloca grandes volumes de água quente em direção à costa da América do Sul.
Esse movimento favorece a formação das chamadas Ondas Kelvin, que aprofundam o calor nas camadas oceânicas e dificultam a subida de águas frias à superfície. Episódios semelhantes já antecederam eventos intensos de El Niño, como os registrados em 1997/1998 e 2023/2024.
Transição da La Niña
Apesar de dados recentes ainda indicarem a presença residual da La Niña, o cenário vem mudando rapidamente. Informações divulgadas em março apontam anomalia de -0,8°C, mas a tendência é de neutralidade climática ainda neste trimestre, com probabilidade de 69%.
Atualmente, já é possível observar um aquecimento localizado nas águas próximas ao Peru e Equador, caracterizando um El Niño Costeiro, com temperaturas cerca de 1,6°C acima da média. A expectativa é que esse aquecimento avance para a região centro-leste do Pacífico entre o fim do outono e o início do inverno, consolidando o fenômeno em escala global.
Impactos possíveis em 2026
As projeções indicam até 80% de chance de desenvolvimento do El Niño entre agosto e outubro, com possibilidade de alta intensidade. Caso o cenário se confirme, os efeitos podem ser significativos:
- Sul do Brasil: aumento da frequência de frentes frias e ciclones extratropicais, com risco elevado de chuvas intensas e enchentes, especialmente a partir de maio;
- Norte e Nordeste: maior probabilidade de períodos de seca prolongada, impactando o abastecimento de água e a geração de energia;
- Agricultura: no Rio Grande do Sul, produtores de arroz e soja devem ficar atentos ao calendário de colheita diante da previsão de chuvas acima da média no fim do outono.
Influência das mudanças climáticas
A análise desses fenômenos tem se tornado mais complexa devido ao aquecimento global dos oceanos. Para diferenciar o aquecimento natural do planeta dos eventos climáticos específicos, instituições meteorológicas passaram a adotar o chamado ONI Relativo (RONI).
Mesmo com critérios mais rigorosos, os modelos climáticos indicam um aquecimento consistente e acelerado do Pacífico nos próximos meses, reforçando o alerta para um possível El Niño de grande intensidade.
Fonte: MetSul Meteorologia